Houve um tempo em que Trindade era quase um mundo à parte: mar de todos os lados, mata fechada, os homens na pesca e na caça, as mulheres na roça, a farinha de mandioca servindo até de moeda de troca. Foi nesse mundo que Jair nasceu e foi nesse mundo que ele decidiu lutar.
O homem do mar
Jair da Anunciação Oliveira era pescador, como tantos homens de Trindade. A vida da comunidade seguia o ritmo antigo do mar e da terra: ia-se a pé até o centro de Paraty em busca de remédios, plantava-se pela lua, e quando alguém cozinhava, o vilarejo inteiro sabia pelo cheiro. Tudo era próximo, tudo era junto.
Era uma vida simples e farta de natureza, com golfinhos, pássaros e macacos vivendo livres entre as praias e a floresta. Mas essa mesma beleza atraiu o olhar de quem queria tomar a terra.
A chegada da ameaça
Com a abertura da rodovia Rio-Santos, veio também a especulação. Uma multinacional passou a reivindicar as terras de Trindade. Primeiro tentaram comprar, enviando pessoas disfarçadas. Quando não conseguiram, partiram para a força: trouxeram pistoleiros, chegando a manter até 60 homens armados na região. Destruíram roças e casas, expulsaram famílias. Houve violência das mais cruéis contra o povo caiçara.
A comunidade, que já fora de 120 famílias, chegou a ser reduzida a apenas 23. Alguns foram para as grutas, outros para Angra dos Reis, Ubatuba, Santos e Guarujá. Trindade quase desapareceu.
O líder da resistência
Jair tornou-se o líder da resistência caiçara. A luta durou anos e o povo não recuou. A comunidade recebeu o apoio da Sociedade de Defesa do Litoral Brasileiro, formada por jovens de São Paulo e do Rio de Janeiro que frequentavam a região, viram a violência contra os caiçaras e decidiram se unir aos moradores.
O conflito ganhou repercussão nacional e internacional. Veio então o apoio jurídico, gratuito, de Sobral Pinto, um dos maiores juristas da história do Brasil, que defendeu a comunidade sem cobrar nada. O testemunho de Jair foi registrado e está documentado no livro da Comissão da Verdade.
A vitória
Em 1982, a multinacional vendeu a área disputada ao grupo Cobracinco, que reconheceu o direito de famílias caiçaras de permanecer na terra. A pressão da comunidade, somada ao fortalecimento do movimento ambiental no país, contribuiu para a criação da APA do Cairuçu. Hoje Trindade integra o Parque Nacional da Serra da Bocaina e é preservada.
O legado
A luta de Jair não terminou com ele. Sua filha, Neiva, deu continuidade à liderança como presidente da Associação de Moradores de Trindade. A história da família, com mais de 500 anos documentados nesta terra, segue viva em cada geração. Este livro existe para que ela não se perca.